Racismo no (sul do) Brasil


Sem meio termos essa é uma região ainda muito racista. Até poucas décadas atrás, negro não entrava nos clubes sociais de Livramento. Era assim certamente em todas as cidades do Estado. As mães brancas não queriam que suas filhas casassem com negros. Tempos atrás? Como sou branco (quase), ouço comentários racistas entre brancos. Na Fronteira, o racismo corria e corre solto. Torcedor de futebol costuma ser racista e homofóbico. Os irmãos irlandeses que fundaram o Internacional o fizeram para ter sidos rejeitados enquanto estrangeiros do Gremio. E até a metade do século XX negros não podiam jogar nos times. Não é exclusividade da torcida do Grêmio, mas esta fez do racismo seu refrão. Claro, não todos, mas em boa parte, os gaúchos continuam racistas, dentro uma região que hospedou historicamente políticas, explicitas e implícitas, de implantação do branqueamento da espécie.

Claro, o Brasil todo é um Pais racista. Mas essa região, com as suas particularidades e unicidades morfológicas e culturais, região de fronteira, prenha de um histórico de várias e diferentes colonizações, distintas por gentes e razões, tem também uma forma de racismo único, particular, especifico. Aqui se encontra um racismo diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul e também do resto do Brasil. É um racismo forte, não em termos de falhas nas leis, mas em termos de raízes: é uma característica enraizada que, na minha maneira de ver, vai até mesmo além da questão étnica.

Na busca para entender a matriz do que surge esse particular sentimento de racismo poderia fazer várias reflexões e hipóteses: de um lado um compreensível mecanismo psicológico de identificação projetiva que descarrega sobre os outros os próprio sentimento de culpa, que não se quer assumir, para uma forma de exploração. Esse mecanismo defensivo primitivo aqui é bastante enraizado. Se pode vislumbrar, por exemplo, ainda em todas aquelas situações de casais onde o homem, após ter levado uma vida de “proprietário” da mulher, permitindo-se de tria-la, desvaloriza-la, humilha-la, ser violento (muita violência contra as mulheres no Brasil), etc., no momento em que vem largados, ou seja a mulher se torna livre, descarregam contra ela a raiva; inculpando-a de várias coisas, entre as quais ser vagabunda; e por que? Para a frustração do controle perdido sobre um outro ser (e a queda do ego) e para evitar assim de questionar-se sobre a violência até então infligida.  Mesma coisa com os escravos. Negros. Outra hipótese de explicação é a cultura dos povos emigrantes. Alemão, italiano, polonês, etc. Todos vindo pra cá em fases históricas de forte antissemitismo na Europa. Aliás, fugindo. Ou, mais uma hipótese, a constituição social e econômica por grupos, abotoados, rígidos, típica dessa região, levou a ver qualquer corpo estranho ao sistema fechado (estrangeiro, diferente, etc.) como uma ameaça a distribuição da riqueza e por isso um inimigo. E a raça, se presta a ser a tatuagem identificativa do diferente e por isso do perigo. O assaltante. E aqui vem o ponto da minha reflexão. O racimos por aqui, penetrante, é mais próximo ao classismo, produto cultural inteligível da gigantesca desigualdade desse Pais, do que a uma questão de raça. Ou seja, ao negro, ao índio, etc. se associa uma condição de pobreza e subcultura, devida inconscientemente ao fato que o branco sabe de ter sido ele mesmo a ter influído por exploração ou por escolhas políticas de desigualdades, que naturalmente leva o apontado a ser perigoso, violento, ameaçador do status quo, das regras micro locais e dos valores pré-constituídos. Resumindo, aqui o racismo parece mais ser uma questão que tema ver com a classe e a moral do que com a raça.

Agora, seria importante que hoje pudéssemos socializar um pouco de nossa compreensão sobre este ponto, como algo realmente muito relevante para toda sociedade, para fortalecer nossas articulações no intuito de alcançar objetivos pontuais de mudança. Falamos disso segunda em Parla com Deny, na radio 103  as 20.00 hrs





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